quinta-feira, 20 de junho de 2013

A SOMBRA

Pudesse perseguir uma mulher
Como se persegue um astro,
E perder o caminho
Quase sem deixar rastro.
Porém quando a encontrasse
No mais ocasional acaso
Só sentir distante
Que o corpo é fundo
E que dele talvez não se escape
A não ser com homicídio.
Mas sentir que não existe
Real comunicação entre corpos
Apesar ou por causa da profundidade de um corpo
Ser maior que ele mesmo.
Que eu pudesse sentir isto
E continuar andando a esmo
Cismado com outras coisas ainda.
Por exemplo: um ataque marcial
De formigas em um banco
Ativa uma abstinência insuspeita.
A luz do carro arruivesse
A carreira de formigas no meu braço
(Carapaça satânica)
E agora, por algum motivo não esclarecido,
Fica evidente que a abstinência
É de sexo grupal.
É o corpo ainda, afinal.
Mas sexo grupal de uma espécie
Ainda não classificada, mensurada:
Um jogo de luzes
Nas linhas bifurcadas ou múltiplas
De vôos de hipotéticas aves?
Formigas e sexo grupal,
Ou algum problema social
Grave picando meu braço:
O vermelho do farol do carro
Não desbotou...
Volto a andar e então
Minha caminhada atinge uma consciência
De realidade:
O fantasma do desejo é a sombra
Que caminha em abismo
Com sua sombra única e tão vasta,
Sobrecarregada e coletiva
Como a sombra da noite que tudo encobre.
Meu braço começa, enfim, a arder.