sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

MANHÃ

Uma estrela
Morreu:
Febre amarela,
Câncer,
Luz artificial.
Amareleceu doente
Todo o vasto
Mar embaciado
Da manhã.
Ele acordou
E desconheceu
Qualquer morte.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CAMINHOS

De verso em verso,
Verso um modo
De encostar
Nos crísticos bastos cabelos.
De arrostar
A possiblidade
Da água ou do sangue,
Ou então do vinho.
De estriar a plantação rociosa,
A flórea avinhada estufa
De sanguinolentas flores
Da crística cabeça, prístina,
Preste ao espinho,
Prestativa ao caminho da dor.
Minha mão sedenta,
Com sede de seda,
De sedosas paragens,
Sedenta da textura
Do vinho ou do sangue,
Que, de toque em toque,
Estoca séculos
De bênçãos e maldições,
Sedenta, foi pelo percurso
Tocar na mãe
Do filho do homem,
Em seu sangue puro,
Queimando as vendas
De suas fendas,
Explorando suas plantações.
A existência de minhas mãos mudou.
Não se podem mais lavar.
Nunca nelas medrou tanto louvor.
Nunca tanto amor.

  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

IMAGO

Um pavão alucinado
Assalta suas penugens.
Se exibe, colore o ar.
Sobressalta seus cabelos
Como se espatifasse nuvens
Acima da vastidão do mar.
Faz seus olhos, ocelulares,
Se solidarizarem com o sol.
Sua boca se abre
Como plumas, penas.
Sua língua pavoneia
Palavras que vão tonificando
O vermelho até se tornarem
Cor assignificante.
Que comunicação há?
O sexo, silêncio via discurso
Que se vê como imagético ritmo,
Ritmo de cores,
Cores ritmadas
Que já são você que voa,
Não pavão nem pavoa,
Mas borboletas
Arcoirisadas
Dos casulos da cauda
Que esboroa. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A FLORISTA

Uma bruxa
Balbucia para suas flores.
Incessantemente,
Como um mantra.
Mantém insetos na manta.
Após silencia,
Rega as flores, as plantas,
As palavras.
Um inseto acaricia
Sua nuca e cabelos.
Ela sorri.
Hoje, o ritual é esse.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

SEM TÍTULO (NOS INTERSTÍCIOS DO POEMA,)

Nos interstícios do poema,
Sua intimidade.
Em sua malha,
A oculta tralha,
Que não pode deixar
De ser tocada.
Mas, ao lado
Da subterrânea mão,
A outra tocando
A superfície.
Pois ronda,
No corpo do poema,
Em suas veias, escamas,
Carapaça,
Ossatura, couraça,
O perigo imo
De se estrangular
No próprio intestino.

domingo, 25 de dezembro de 2016

CICLO MALDITO

Esse chicote de fogo
Que machuca as folhas,
Que faz a manhã lacrimejada.
Esse sol agressivo,
Tórrido, hórrido, antojado,
Amanhã, ontem, hoje.
Essa lua triste,
O chicote prateado,
Essa língua da volúpia,
Essa angústia alcançada
Ou inalcançável,
Que não se cansa.
Essa maldição
Chamada esperança.
Esse chicote de fogo,
Amanhã, ontem, hoje.
Essa violência eterna,
Minha natural família,
Nossa natural família,
Família natural de nós,
Eternos bastardos.
Esse chicote de fogo
Que machuca as folhas
E que nos machuca
Nos dando vida,
Nos dando saúde,
Nos dando esperança,
Essa maldição
Que é a mão
Se iludindo, insana,
Ao se derreter
Na chama.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

NOME

Uma criança perversa
Soa o nome de deus.
Sua língua chicoteia esse nome.
Fá-lo pegar fogo ao falá-lo.
A saliva o afoga em um dilúvio.
O oco, o escuro o esvazia,
O avessa, procura o que há
Por trás dele e nada há,
Soa inominável.
Não representa nada.
É deus, amor, vazio.
Não representa nada.
Uma criança perversa
É uma criança sagrada.