segunda-feira, 27 de março de 2017

SEM TÍTULO (O DELÍRIO DAS MULHERES)

O delírio das mulheres
- O delírio cósmico -
Faz coincidir realidade e sonho.
O delírio das mulheres
Avilta as separações
E após torna tênue
Suas sutis aderências.
O delírio das mulheres
É o abraço poroso
Das auroras nas filigranas
De suas mais mescladas horas.
O delírio das mulheres
- O delírio cósmico -
Sustenta a realidade, o sonho,
Os entranhamentos
De suas aderências,
Os estranhamentos,
Os desmoronamentos
(E a naturalização,
Também sutil)
De seus contatos
E de seus funcionamentos.
Se as mulheres pararem
De delirar,
Se pararem de delirar
Cosmicamente,
As máquinas do mundo,
Completamente bem reguladas,
Farão - pior pesadelo antidelírio –
Com que o mundo siga
Como se fosse possível. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

SEM TÍTULO (A ABELHA PASSA)

A abelha passa
Deleuzzzziando
Sob nossa cabeça:
Ziguezaguezeia
Até a colmeia,
Mas para multiplicar
Ainda mais
Seus caminhos. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

SEM TÍTULO (UM VEIO ANARCODESEJANTE)

Um veio anarcodesejante
Enrista o vento
Que investe em minhas narinas.
Encapelada, uma das fissuras
De meu olho estoura,
Memória e dispersão.
Farejante, o vento se inala,
Expele uma convulsão.
A História se bifurca,
Forca da própria evolução
Que se anacroniza.
Pós-anacrônico,
O vento persegue
Arquiteturas pluralistas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

EXPERIMENTAL

Dividir a cama
Com nossos pais
- O freudismo inevitável.
Transformar, então,
Em experiência
A representação.
Dividir nossos corpos:
Amigas, amigos,
Prostitutas, michês,
Mãe, pai, irmã, irmão.
Nossas linhas de fuga
Brincarão com os clichês.
Nossos corpos serão matilha,
Uivando perfumes
Na noite irreconhecível.
As linhas de seu corpo
Promoverão zonas de rangência
Com os animais.
Uma aranha sensualmente
Apavorante criará teia
E te chamará de casa.
Gatas eriçarão seus pelos.
Uma leoa abrirá sua boca.
O hálito carnívoro
Será um banquete umedecido,
Regado a um mórbido
Licor de vida.
Linhas de fuga
Beijarão a loucura íntima
De uma teoerotologia
Criada após uma
Missa de orgia.
O número de corpos
Será ilimitado
Como o desejo.
Mas o desejo é imensurável,
E chegará o momento
Em que todos os corpos
Estarão em nós,
Profundamente indiscerníveis.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

CAFÉ

Milhares de esquizos
Procuram seu corpo.
Milhões de fluxos
Aderem a seus olhos
Sem tornar substância.
Múltiplas morfoses
Pinçam suas reentrâncias,
Seus pelos,
Sua máquina antropológica.
Diversas identidades excitam
Sua utopia antropofágica.
Uma obra de arte
- Um poema -
Opera em seu corpo
A textura, o tato, a pele total
De uma sociedade inoperante
- Uso, desuso, novo uso.
Um devir-índio comunga
Com sua fala, com o calor da voz,
Com o ritmo,
Toca no brilho etimológico perdido.
Seus cabelos despenteados
São o espectro
Do niilismo produtivo.
Seus agenciamentos
Estão fora das agências.
Mas seu plano de imanência
Sempre deixa um torrão
De metafísica no café.       

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

SEM TÍTULO (O ODOR DAS MÃOS)

O odor das mãos
Permanece no alimento.
Acabo me alimentando
Do odor de suas mãos.
O alimento – que sobra –
É a sobremesa do seu odor,
E a maciez de seus dedos
Influi na textura
Do que sobrou
E não mais sobra.
Toquei o lenço
Para limpar a boca
E confundi
Com de um de seu dedo
A frágil dobra:
O odor, a maciez.
Encontrei o outro lenço.
Me limpei, mas ainda
Havia a maçã,
Que também confundi
Com sua boca
Que o amor cobra.
Boca e maçã,
Mordi e beijei,
Suculenta e langorosa,
Pois não há análise
Que me impeça
Tal síntese saborosa.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

MANHÃ

Uma estrela
Morreu:
Febre amarela,
Câncer,
Luz artificial.
Amareleceu doente
Todo o vasto
Mar embaciado
Da manhã.
Ele acordou
E desconheceu
Qualquer morte.