sábado, 21 de novembro de 2009

PROVINCIANO

Cidade grande, tentacular?
Não a experienciei.
E sem experiência, já a temo, já a odeio.
A luxúria da preguiça me invade.
Preguiça de província onde,
Mesmo trabalhando, progredindo,
Ainda se vive.
Meu spleen é só um marzinho de tédio.
Cosmopolita é meu discernimento;
Mas meu corpo,
Meu desejo,
Minha natureza
Pedem menos.
Assombrado por infinitos,
Odeio tudo que seja demais.
Minha cabeça se entusiasma com chapéu,
Mas minhas narinas se acostumaram com esterco.
O mato, sem querer, estimulou minha sensibilidade.
A mim, que a natureza provoca calafrios.
Meu carro ultrapassa charretes.
O punk tira leite da vaca da pequena fazenda de seu pai.
Aspirante a erudito,
A falta de erudição me contenta.
Não preciso conhecer muita gente.
Não enfrento o mundo,
Mas tento enfrentá-lo quando me enfrenta.
Viver é outra coisa.
É essa outra coisa que eu vivo.
Cidade, para mim,
É lugar de se encontrar.
Ao desconhecido da cidade grande,
Prefiro o mistério da existência.
Aqui,
Sustento meu mistério
Sem maiores mistérios.

2 comentários:

Virgínia Allan disse...

Poema em que refletes o que penso eu também sobre as cidades, muito bonito... sempre que se fala de cidade lembro-me de Italo Calvino e suas cidades invisiveis, bellissimo livro...

Nilredloh disse...

Um poema muito bonito. Adorei a imagem do punk a colher o leite da vaca! Um abraço,
Jorge