quinta-feira, 4 de maio de 2017

SOMBRAS

Fontes rumorejam com o húmus.
Pássaros triscam rapidamente
O ar esverdeado pelas folhas.
Uma fantasia que resvala a sombra humana
Percorre em vulto, mas não se realiza.
Todavia as árvores, os pássaros,
As fontes exercitam suas úvulas,
Se avisam, se inocentam.
A cada vulto, se avoluma o medo.
A inocência, porém, nunca existiu:
É o manto verde da natureza,
Sua visão panorâmica, original.
As úvulas que se inocentam
Vibram na sintonia de clítoris
Brilhantes de prazer.
As fontes fecundam com furor
As terras, se afundam como invasoras.
O vento violenta as árvores.
Elas gostam, uivam de dor e prazer,
Como a vibração de todo o resto
Do fundo império.
Nunca se soube tão ao certo
O que é sombra humana
E o que não é.   

sexta-feira, 21 de abril de 2017

DE NOVO, NUNCA

Ruborizar a maçã fresca
Que frutifica com a manhã.
Renegociar, então, a dialética
Do dia e da noite,
No ínterim, no interior
Do ínterim que pausa
O movimento – imagem.
Perceber a ritualística do corpo –
Aquela que despercebemos.
Verificar a ritualística da natureza.
Respirar com ela,
Profundamente.
Renegociar, então, as ritualísticas,
O corpo, a natureza.
Guardar na mão o rubi do amor,
Encostá-lo na maçã do rosto
E ver frutificar, de novo, a fresca
Rubra manhã, nunca vista.
Melodiar o pássaro raiado,
De novo, nunca visto.   

PEDAGÓGICA

Uma milf só com espartilho negro chicoteia uma jovem nua de dezoito anos na pequena dungeon de sua casa, que ela elaborou com tanto cuidado. As rugas e as cavidades de uma se encrespam na lisura suave da outra. A língua que já disse tudo se liga à língua que já disse muito pouco. Forte como o suor do sádico, o hálito, os cabelos, os seios de uma tentam prevalecer recendendo seu poder, sua experiência, sua sabedoria, seu império, a inabalável divindade. Mas a jovem, no auge da dor, adquire rugas, cavidades (matizadas cavidades), lacerações que confundem feridas com o tempo, produzindo um novo imaginário realizado na arqueologia do corpo. O rosto força as rugas, é forçado às rugas. A experiência, a sabedoria da dor constrói, por sua vez, seu próprio império, pacientemente. A outra, enquanto cheira e lambe o suor da dor, vai rejuvenescendo um suor mais leve no próprio corpo, que alisa sua pele com a ingenuidade do prazer, essa criança que cria o desejo de ser criança. O suor catalisa o processo de modificação etária, nas vias de uma body modification que faz o natural conviver com o artificial. Quando a criança que antes tinha sessenta anos, e agora menos de dezoito, agarra tremendo pelo pescoço a idosa que antes tinha dezoito anos, e agora mais de sessenta, e olha o sorriso dúbio da slave, sabe que tem muito a aprender. E sabe que a beleza existe quando o crepúsculo de um deus se tensiona, para sempre, com a ascensão de outro.

sábado, 15 de abril de 2017

DIA

            Saiu de casa com uma vaga impressão de para onde iria. Não encontrou o fio de nenhum GPS mental, só um emaranhado de sugestões, uma trança de acasos que poderiam compartilhar suas coincidências se por um acaso coincidissem. Antes de sair, havia escovado os dentes. E o melhor fio dental é o que quebra sob razoável pressão. Antes de os escovar, tinha despertado, talvez. Essas temporalidades, esses atos, parecem não acabar, se mesclam com o resto do dia, com o indefinido resto dos atos, passos, repastos. E mesmo que se repassem, tais temporalidades, atos tais não coincidem em si mesmos, perdem a substância, que nunca tiveram, trocam suas substâncias, que nunca tiveram, compartilham-nas, nunca as tendo tido.
            Caminhou, percalçou as calçadas, caçou por onde pudesse encontrar o que perder. Não soube ao certo o nome das ruas, esteve no avesso ou atrás de todo nome, de toda nomeação, de todo rosto.
            Se deparou com uma profissão. Mudou de profissão durante o período da tarde, foi demitido de todas. Demitiu-se de todas. Nunca soube ao certo com quais profissões se deparou. Parou de imaginá-las.
            Encontrou uma mulher. Aquilo que chamamos uma mulher, ainda. Falou, desfalou. Falou desfalas. Dirigiu-a à casa. Aquilo que chamamos casa. Falhou o falo, a fala do falo falho. Falhar é um ato heroico. Não foi.
            A mulher se despediu, como aquilo que chamamos mulher, ainda, se despede daquilo que chamamos, ainda, homem. Na ausência de outras palavras, de palavras outras. Talvez algo de mulher tenha ficado nele, talvez algo de homem nela. Mas não há substância.
            Dormiu.

segunda-feira, 27 de março de 2017

SEM TÍTULO (O DELÍRIO DAS MULHERES)

O delírio das mulheres
- O delírio cósmico -
Faz coincidir realidade e sonho.
O delírio das mulheres
Avilta as separações
E após torna tênue
Suas sutis aderências.
O delírio das mulheres
É o abraço poroso
Das auroras nas filigranas
De suas mais mescladas horas.
O delírio das mulheres
- O delírio cósmico -
Sustenta a realidade, o sonho,
Os entranhamentos
De suas aderências,
Os estranhamentos,
Os desmoronamentos
(E a naturalização,
Também sutil)
De seus contatos
E de seus funcionamentos.
Se as mulheres pararem
De delirar,
Se pararem de delirar
Cosmicamente,
As máquinas do mundo,
Completamente bem reguladas,
Farão - pior pesadelo antidelírio –
Com que o mundo siga
Como se fosse possível. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

SEM TÍTULO (A ABELHA PASSA)

A abelha passa
Deleuzzzziando
Sob nossa cabeça:
Ziguezaguezeia
Até a colmeia,
Mas para multiplicar
Ainda mais
Seus caminhos. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

SEM TÍTULO (UM VEIO ANARCODESEJANTE)

Um veio anarcodesejante
Enrista o vento
Que investe em minhas narinas.
Encapelada, uma das fissuras
De meu olho estoura,
Memória e dispersão.
Farejante, o vento se inala,
Expele uma convulsão.
A História se bifurca,
Forca da própria evolução
Que se anacroniza.
Pós-anacrônico,
O vento persegue
Arquiteturas pluralistas.