quarta-feira, 4 de maio de 2016

SEM TÍTULO (NÃO SEI DE QUE EXÓTICA REGIÃO)

Não sei de que exótica região
De erotismo sagrado
Surgiram tais deusas
De pose sáfica.
Não sei por quais ritos passarão
Nem quais rituais
E sacrifícios executarão.
Vieram de uma rave?
Chupam doces da boca
Uma da outra.
Vieram de um show de rock?
Vieram imaginadas
Pela esquina escura
Que abre um universo
Volúvel e inesperado
A cada nova esquina (escura)
Para que algum falso psicótico
Como eu pense em literatura?
São amigas de Albertine?
Skaters, hipsters, hippies chics,
Junkies, groupie chicks,
Aventureiras de rua?
Se eu não sofresse de cansaço
Pós-moderno poderia continuar
E tecer toda uma intertextualidade
Até esgotar o ramerrão lírico,
Mas elas estão dopadas,
Vomitando tudo, até sangue,
E eu, sem sofrer déficit de símbolo,
Ligo, Orfeu, para a emergência
Antes de ser devorado
Em um bacante banquete
Scat reverse gangbang.

SEM TÍTULO (PESSOAS AO MEU REDOR)

Pessoas ao meu redor
Tem constatado câncer
E outras doenças.
Preciso mudar meu discurso,
Minhas metáforas.
Usarei um discurso,
Uma metáfora
Que faça com que uma flor
Estraçalhe (salve)
O cérebro de alguém que amo.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

SONHALIDADE

Um sonho sonha
Em mise en abîme.
Um idílio desemboca
Em um pesadelo,
Arrepia o próprio pelo
Como se pelo místico abismo
De uma teologia negativa.
O mise en abîme
Mais se abisma
- Idílios e/ou pesadelos -
Até que a origem
Se embace ou se esqueça.
Não há retorno,
Só há diferença.
Até o ponto
Em que a realidade
- A própria diferença -
Se aqueça e apareça
Perante o sonho e o sonhador.

DIÁLOGO PÚBLICO-PRIVADO

De que sarro fala?
Do sedimento do seu vinho?
Da saburra pós-suruba
Em que sua língua ácida 
Enveredou por algum caminho?
Do resíduo do tabaco
Ou da fuligem da pólvora
Do seu olhar que teima
Em uma artificial toleima
Que despista a profundidade
Do seu próprio olhar, mistério
De gruta ou no mínimo
(Nos dias mais burocráticos)
De escaninho?
Qual foi o mistério
Do diálogo daquela noite
- Belo diálogo entre seu ânus
Avinhado e a privada,
E depois entre seu ânus
Avinhado e minha boca?
Qual o diálogo
Entre a vida pública
E a privada no poema?
E até que ponto
Você irá tirar sarro
Desse esquema?

sábado, 23 de abril de 2016

SEM TÍTULO (AS MULHERES QUE ORVALHAM COM OS ANTÚRIOS.)

As mulheres que orvalham com os antúrios.
As mulheres que acariciam uma pomba de luto.
As mulheres que contaminam a terra com seus odores.
As mulheres que aquecem uma liturgia de amêndoas.
As mulheres que hipnotizam a lua com olhos de erva-mate.
As mulheres que canalizam metamorfoses lupinas.
As mulheres que comemoram festas pagãs.
As mulheres que conspiram magias de cabelos.
As mulheres que alimentam os animais.
As mulheres que ligam o céu à terra com o próprio corpo de [ocaso.
As mulheres que sinalizam a sociedade das dicotiledôneas.
As mulheres que dão forma e respiração às cidades.
As mulheres que fazem do poema um mantra. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

METADE

Me posto perante a árvore,
Ela também se posta perante mim.
Estou descansado.
Ela me fala das raízes
De sua história antiga,
Sua remota origem.
Me fala de sua sexualidade dúbia
E de suas oscilações,
De seu baixo material e corporal,
Que teme o desmatamento,
O genocídio de sua raça verde.
Meus pés estão descalços,
Inclusive de discursos.
Sinto o verde e a terra
Como se quisesse encontrar raízes,
O discurso da árvore.
Minha língua vermelha
Nunca será uma folha verde.
A árvore continua falando
Enquanto meus pés se esforçam
Para irem mais fundo.
As raízes de minhas veias arbustivas
Sangram vermelho, igualmente.
A árvore também descansa.
Compreendi metade do que ela disse.
A metade que não compreendi
Talvez seja a mais importante.

SEM TÍTULO (CONHEÇO SUAS ZONAS ERÓGENAS.)

Conheço suas zonas erógenas.
As que você já possui,
As que você cria e também possui,
As zonas fantasmas,
As escondidas, as sutis,
As dissimuladas.
Sou poeta, sou monstruoso
E sou delicado.
Não há (ou há?)
Nenhuma de suas zonas
Que eu não tenha encontrado (?).