domingo, 29 de março de 2015

CHUVA

Cães nunca conversaram
Seriamente entre si
Enquanto estávamos virados.
Mas gafanhotos conspiram
Um final verde para o mundo.
O som será ensurdecedor, creio,
E muito leve,
Como uma antena de inseto.
Carrapatos e pulgas
São os vampiros da infância
Com sua avermelhada
Oblonga sede
Perpetuando temores.
Os gafanhotos
São chuva divina, verde.

SEM TÍTULO (UM POEMA ÁGRAFO)

Um poema ágrafo
Tensionando toda uma existência:
Nenhuma serpente invisível
É áglifa.
Os galos tecem a manhã
E amanhã, provavelmente.
Na terra,
Um teatro teratológico
Se exibe escondido
Em fundo imaginário.
Aracnéia teia
Zomba da dialética
E faz com que o sonho
De um paradigma
Desabe no sonho de um sintagma.
O céu não atura
A escritura;
Ela cairá em nossas cabeças,
Como se fôssemos
Todos gauleses.
Mas vivemos todos
Profundamente no deserto. 

terça-feira, 17 de março de 2015

FEIXE E JARDIM

Um murmúrio de luz
Está aberto a um sentido avulso
Em algum lugar.
Burburinho no escuro,
Navalha, gilete, cicatriz
Brilhando em algum lugar
Do lugar algum do escuro.
O risco das metáforas
É sempre arriscado.
Se poderia apelar ao sagrado,
Ao imorredouro sagrado
Que abre a cicatriz
Em busca do pus da luz.
Apelar ao sagrado, ao erótico.
Sonhar realidades,
Como aquela de que
As mulheres têm flores no ânus.
Nenhum sentido se basta,
Nenhuma realidade se abre
Sem que se a sonhe.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

INFÂNCIA DE NIETZSCHE

Deus já morreu.
Agora quem manda
Em mim sou eu.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

SEM TÍTULO (PARECI UMA CIGARRA SOLITÁRIA, SÓ CASCA.)

Pareci uma cigarra solitária, só casca.
Um cigarro abandonado,
Uma folha caída, perdida,
Um perfume se entorpecendo,
Folhas (outras) amarelecendo:
Pude sentir o hálito da vagina de Deus,
No escuro, como uma luz quente
Inarticulando um caminho hediondo
Para que se soubesse
Que seu saber era indevassável.
Impossível o sal daquele odor,
Recuperável como o momento exato
Em que a lua crivou o escaravelho
Que um dia assumiria o coração faraônico;
Como a partitura da música sidérea
Que preenche o segredo
Do espaço antes de um dedo
Tocar, displicentemente, o outro.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

ESTRIAS

O estriado do céu,
Do corpo feminino.
Um espasmo espalma,
Vertigina o celestino
Corpo, esparso
Até o infinito,
Em clima de Klimt.
As nuvens se reúnem,
Alegres dançam
Lacancan, após se cansam
De ser o Feminino
Que não existe;
Se refazem
(Não nascem, tornam-se):
Se abre o horizonte
Do Outro do Outro.
Outros animais devêm:
Lobas decuplicam
Sua matilha,
Se solidarizam.
(Lobos também avançam
Nas estrias do céu.
Alguns se escondem
No gozo pleno
De celulites).
A mãe dizia
Que nas nuvens
Se veem animais.
A mãe, triste
Como a flor bela
Que era Soror Saudade,
Não pôde ver, só,
Esta sororidade.


sábado, 31 de janeiro de 2015

SEM TÍTULO (O POEMA PERFORMA,)

O poema performa,
Agora, nesta hora.
Não pretende seguir
À risca nenhuma norma
Nem nenhuma
Tão exata forma.
Ainda estima a rima,
E ri mais do que devia,
Às vezes; outras vezes
Não se conforma
Com o riso fácil,
Fazendo com que a dor
Perca qualquer pudor
E interfira na coreografia
Como nova dança,
Ou nova mescla,
Nova performance, leitura,
Nova versura,
Como se no corpo do poema
E no seu houvesse
Prazer na tortura.