segunda-feira, 10 de agosto de 2015

AMOR À LUTA

Como um boxeador lango lango
O orvalho de vinho oscila a cabeça
Até golpear o seio desguarnecido.

CORPO EXPANDIDO

Uma violência mística atinge o fundo do olho.
Bárbaros sacrificam o fundo do olho.
O regime de algum imaginário grita
Em seu olho tão incompreensível
Que você compreende como se compreendesse tudo.
Após a violência, uma exaustão
Se apodera do corpo, o expande,
E na expansão anula qualquer possibilidade
Que não seja anulação.
A água limpa o sangue,
Rosas cobrem o corpo de vermelho,
Flores atacam com delicadeza.
Margaridas, tulipas;
Mas o sangue das rosas
Defende seu império perfumado.
Também há conflito na delicadeza.
O corpo dorme, vermelho e calado.

domingo, 2 de agosto de 2015

AFETO

Deixar aparecerem os órgãos
Para aumentar a frequência afetiva.
Amor, aqui meu fígado.
Apareceu quando despertei.
Trocar partes do corpo,
Compartilhar membros,
Androginar a metamorfose.
As crianças trocam figurinhas.
Algum Cristo lhes deveria
Dizer para trocarem seus membros,
Brincarem com os órgãos uns dos outros
Desde a mais tenra infância.
As aulas de anatomia deveriam ser diferentes.
Um pouco de canibalismo também faria bem.
O amor precisa destas mudanças.
Amor, aqui meu baço.
Pegue o seu, me imite,
Faça o que eu faço.
Você daria um beijo nele no final?

sexta-feira, 31 de julho de 2015

ZUMBIDO NO OUVIDO

Tarde amena.
Grilos ao fundo.
Bucólico poema.

domingo, 26 de julho de 2015

SEM TÍTULO (ACORDEI COM DESEJO)

Acordei com desejo
De beijar a vendedora
De flores mutantes.
Acordei com desejo
De voltar a dormir
Para seguir o rastro odorífico
De chás exóticos
Do caminho de meu sonho.
Mas a vendedora
De flores mutantes
Cheirou mais marcante.
Acordei em nome dela,
Por ela, para encontrá-la.
Sei que não conseguiria encontrá-la.
Suas flores emurchecem
Cinco minutos após eu despertar.
No café da manhã, tomo chá.
Com pétalas de rosa
Boiando seu perfume.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

SEM TÍTULO (UM BRILHO BRUXO NO FINAL DO PINGO DE SUA SALIVA QUEM AMA AMA O QUE VEM DE DENTRO O SABOR DA SALIVA)

Um brilho bruxo no final do pingo de sua saliva quem ama ama o que vem de dentro o sabor da saliva a queimação da urina o odor das fezes ela sonha em experimentar o próprio seio esquerdo tento procurar no Google como fazer quais os procedimentos é preciso cuidado como jantar um pedaço da amada junto com ela a mais bela luz de vela seu sonho de nulificação vela seu desejo de me ver – voyeur - canibal range meus dentes matilha me faz gostar do gosto e do odor das sujeiras que ficam na língua ao amanhecer – minha e dela – seu cu cult como saído de filme francês pisca antes dos gazes para que sua essência me transforme em mais perverso des Esseintes seu arroto no momento exato das palavras finais sobre a écriture barthesiana para após outro arroto iniciar uma conferência babenta sobre a riqueza com que Ricoeur absorveu o Estruturalismo e a semiótica greimasiana e os transcendeu hermeneuticamente a meleca de seu nariz é mais dourada que ouro tirado de nariz bilaquiano a cera de seu ouvido derrete na boca como sorvete de baunilha ferido pelo sol do meio-dia a bege amarelada marca cicatriz de nascença perto de sua virilha uma tatuagem a cobrirá ou não tomara que não tomara que não tomara que não nenhum neologismo mot-valise carroll-joyce-rosiano irá decifrar o enigma inominável desta marca cicatriz amarela e bege com a qual a natureza a presenteou sou só boca sou só boca e todas as partes de meu corpo que a leitura acabe.

domingo, 19 de julho de 2015

SEM TÍTULO (UMA FACA SÓ LÂMINA)

Uma faca só lâmina
Reflete uma estrela só brilho
No parapeito da mesa.
Um pressentimento de aborto
Contamina a lua,
E uma ansiedade erótica o meu peito.
Metáforas se multiplicam,
Proliferam, colidem:
Mundos colidem,
A guerra é real e virtual.
Não existe mais proletariado,
Mas precariado e refugo.
Até onde as metáforas?
É preciso algum território,
Alguma territorialização.
Hoje: discutir o ocaso da metafísica
(Algo de Nietzsche, provavelmente)
E conferir a última bunda
Sob o rótulo break the internet.
A última bunda viral,
A última banda de metal.
Me lavo no banho.
Um resto de líquido vaginal imaginário
Escorrega de minha boca até o ralo.
O cheiro do ralo...
Limpo até.
(Metáforas proliferam.
Até onde?).