quinta-feira, 9 de julho de 2015

PETIT GÂTEAU

Uma nuvem
Envolve o último andar
De um prédio:
Bigode nietzschiano
Sustentado pelo braço
Como em famosa fotografia.
Um inseto de fogo
Risca o ar, arisco.
Talvez uma abelha,
Com a exclamação
Do seu ferrão.
A mendiga maluca
Está sentada perto de mim.
Sinto seu odor feroz
E seus gatos miam perto dela.
Ela grunhe, gesticula
Com a voz estranha, distorcida
E tento realizar, ludicamente,
Em minha mente,
Uma provisória postura estética
Que aliasse Augusto dos Anjos
E death metal.
Após, vou tomar um café trufado
E, como efeito de fantasia ditatorial,
Truffaut trafega
Pelas imagens dispersas
Que minha imaginação desperta.
Café trufado, depois um frappé.
Por fim, um petit gâteau.
Tão pequenos os gatos da mendiga,
Miando seus gestos,
Mirados para ela.
Também mendigando restos.
O bigode de Nietzsche
Já deve ter esvaecido,
Tão cofiado que foi.
Ele esvaece onde não há
Vontade de potência.
Um sentimento de barbárie
Se apossa de mim
Quando engulo o último
Pedaço de sorvete.
À noite, gatos vêm brigar
No meu telhado.  

terça-feira, 7 de julho de 2015

SEM TÍTULO (SINTO O ODOR DO MEU CORPO,)

Sinto o odor do meu corpo,
Do meu cabelo caindo
E deixando um espaço na cabeça,
Molhado de água amarela do sol.
O céu está um mar amarelo.
Agora o odor das plantas, no jardim.
Da pele suja de terra da formiga
Caminhando na planta do jardim.
O odor difícil da teia de aranha no orquidário,
De suas moscas estocadas.
A dor de uma nuvem retorcida não cheira.
Só a água do sol, que não é inodora,
Assim como nenhuma água o é.
Começa a esfriar...
Enfim, odor de constipação,
Subsumindo todos os odores.

domingo, 5 de julho de 2015

COTIDIANO

Bebo o sangue de Cristo
No ketchup do McDonald’s.
Como freira, uma atriz pornô
Em um cartaz no fundo da locadora
(Já almocei a missa),
Ri de Alain de Botton.
Um cão invisível late
E eu mais vejo do que ouço o som.
Uma atmosfera amorosa
Atravessa a calçada com pressa
E se concentra, talvez para sempre,
No bolso da calça
Da menina de cabelo azul.
Azul que compensou a falta dele no céu.
Minha cota de cotidiano
Escorre um pouco com água
Para um bueiro.
Observo a polícia na rua, azulada.
Mas há quase só milícia.
Algo no dia me alicia.
Alguém cita UPP e entendo PCC.
Isto é sono.
É delicioso sentar na praça,
Ao sol, lagartinando,
Quando se está com algum sono.
(Sou muito provinciano.
Não quero “vencer” na vida.
“Vencer”, às vezes, é perder muito).
Minha visão de mundo é estética,
E no meio da província.
Muitos mentem sobre o sexo.
A biologia, por exemplo.
Gosto de acrescentar um tom
Meio ridículo em muito do que faço.
Uma suave auréola coroa uma árvore
Algo desmembrada.
Uma bailarina enlouquece na rua.
Sua dança desangula o dia
Em seu mecanismo dito neutro.
Vejo a barriga de uma grávida
Com olhos de membro de grupo
De Charles Manson e imagino
Quanto o filho será parecido com a mãe.
Terá de ter linhas tênues,
Como aquela linha de lã
Que traça o horizonte... 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SEM TÍTULO (COMO EM UMA EXTENSÃO TODA DE AREIA)

Como em uma extensão toda de areia
Movediços abismos sugassem
Elementos fugazes do fluxo da memória.
Abismos produtivos,
Irmãos imaginários da imaginação,
São a saúde do esquecimento
E a necessidade da narrativa
Que precisa ser criada
Nos negaceios, nas elipses
De sua vida natural.
Assim é bem-vinda toda brecha;
Toda fissura, necessária.
E assim toda pureza linear
É falsificação. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

SEM TÍTULO (O SER É NÔMADE,)

O ser é nômade,
Tudo é fluxo espermático, sanguíneo,
Os lobos que eriçam meus pelos
Para poderem viver,
A película de seus olhos
No arvorecer florestal,
O ritmo mágico da fala indígena
Que zumbe em seu ouvido
E prejudica a tecnologia dispendiosa
Das grandes cidades,
O mito alucinado invadindo
Seu corpo e o corpo citadino,
Os corpos das mulheres bêbadas
Anoturnadas, o vento que sopra
A pústula quente do seu desejo
Andrógino de ser Cristo,
O ser é nômade...
Mas algo tem de se repetir.
É preciso que algo se repita,
Caos saudoso no entorno
De algum retorno.
Uma palavra tensa, aflita,
Que, por um momento que seja,
Performe o eterno, densa.

terça-feira, 23 de junho de 2015

SEM TÍTULO (SATÃ ELUCIDA)

Satã elucida
A companhia das crianças,
Enquanto a campainha de Deus,
Feito paleta,
Avulta uma técnica rembrandt
De cor nos corações
Menos aquecidos.
Deus é esta técnica de luz e sombra
Que o esteticismo satã
Torna esmaecida.
Já vi a cosmicidade nos olhos
De uma criança.
Uma batalha feroz,
Que faz com que os ingênuos
Sejam os menos ingênuos
De nós.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

LICANTROPO

Menstruosa, cibelina, polimasta,
Eu também monstruo.
Sua loucura me arrasta.
Quero minha lua; possuo
O sangue da mais ferina raça.
Meu uivo eu suo.
Nada há que me faça
Ser mais fasto
Que sua face nefasta.