domingo, 8 de agosto de 2021

HISTORICISTA

Narrativas fotográficas passam

Ventando a história por minha janela.

Fotografar as narrativas

É aprofundar um simulacro,

Dessubstancializar ou reforçar seus sentidos?

Fotografar com os olhos,

Com as câmeras digitais, oculares.

A história que passa só fixa

A passagem, passa o que fixou,

Não permanece o que ficou.

Minha janela arquivou a mobilidade

Da história através de meus olhos

Da realidade lá fora.

Aqui dentro iludo, eludo, elido

O som, surdo, para vivar paisagens sonoras

E as transportar para as paisagens visuais

Da história lá fora.

Aqui dentro, a tentação da passagem

Da janela para a tela.

História. Onde as melhores imagens dela?

sábado, 19 de junho de 2021

UM PAISAGISMO

 Uma paisagem sonora,

Como o fantasma da fantasia,

Toca no corpo, gemebundo, sutilmente.

A paisagem é corporal agora,

Um pouco à paisana.

Tento imaginar, sonoramente,

Um tapete persa, sofisticada persiana.

Mas, não, nada disso por enquanto.

Os dedos, o rococó tornozelo,

O silente zelo das pernas, da bunda

São a paisagem tensa

Da distensão, do frouxo relaxamento.

Os lábios mordiscam algumas notas

Que os cabelos ouvem polifonicamente,

E assim as compreendem.

O pós-caligulino hálito ressacado

Entontece as notas

Com a sonhada orgia

Regada à saliva no escuro

Da goela, próxima da úvula.

Também tento, sonoramente,

Imaginar uma nota de uva,

Assim como falar da vulva.

Mas tal região vive sua própria tensão,

Seu próprio concerto sociobiológico.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

SANGRENA


O gato de olhos sangros

Eriça os cabelos da noite.

Que mênstrua mensagem

Passaria sua passagem?

Os cabelos da noite

Nos galhos da noite

Descansam, dormitam

O sono dos injustos,

A vigília dos justos.

Mas que sangue ainda luz

Nas madeixas, que vermelho

Meneia mudas queixas?

O pássaro pia o dia com gangrena

Da noite nulificada,

Pelo sangue do dia encharcada.

Não mais se estanca do dia a veia,

E o que se anula

Ainda guarda sua caveira:

O pássaro gangrena,

O pássaro sangra,

O pássaro sangrena.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

NATIMORTO

A massa do sonho

Rasteja na fronha,

Enrodilha o edredom.

Caliginoso, adrede

Adentra a boca

E adormece em seu halitoso

Esmegma.

A boca que desperta

Recondita, escova, redondilha

E cospe os sonhos do sonho.

O som do sonho, bochechoso,

É aquoso, e corre

Uma sombra de desejo,

Um fio de infinito

Que o ralo desfia,

Desfibra, deslinda, des

De que nasceu.

sábado, 3 de abril de 2021

TINDER

Quero um sugar daddy.

Sou de esquerda.

Não quero mulher com filho.

Não agora.

Nem com celulite.

É casado?

Quanto ganha?

É médico?

Manda foto de agora.

Vamos nos encontrar.

Quando?

Quando quiser.

Na semana que vem?

Não dá.

Sou feminista.

Não diga oi.

Seja criativo.

Leu o perfil?

Sou bissexual.

Bom dia.

Boa tarde.

Boa noite.

Bom dia.

Boa tarde.

Boa noite.

Quero me casar.

Ninguém quer.

Quero foder.

Quero ménage.

Quantas vezes fez?

Várias.

Uma.

Nenhuma...

Não sei o que quero.

Você é abusador?

 

 

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

SEM TÍTULO (O CABRALINO INSUPORTÁVEL)

 O cabralino insuportável

(Que só lê, não deslê)

Canta a insuportável bukowskiana

Entre os comes e bebes

Do evento cultural

Que tenta não ser um evento-encenação.

Passam a noite lendo, não deslendo

Toda a lida burocrática,

Insuportável, da aproximação.

A bukowskiana,

Insuportavelmente bêbada,

Já relida e deslindada,

Parece não querer mais nada.

O cabralino, sem querer tecer a manhã,

Não mais querendo catar feijões,

Começa a deslida,

A partir da porta de saída.

quarta-feira, 17 de março de 2021

SEM TÍTULO (DISTANTES, FALAM CÃES.)

Distantes, falam cães.

Mais próximas, pessoas latem.

Nos latidos, ruídos de fala,

Projetos de articulação

Fazem coro com os que emito

Abrindo os olhos com o lento ritmo

Do sol nascendo, coral.

São diversificados os ritmos da vida.

Já disseram: inumeráveis.

O pentâmetro iâmbico dita

A mastigação, a natação?...

Quem o sente, sem sequer conhecer?

Principalmente sem sequer conhecer.

Os ingleses tentam, tentaram.

Troqueus, espondeus,

Cesuras alexandrinas.

Tais ritmos movimentam a vida,

Cadenciam a respiração,

Organizam-na junto ao universo

Em uma bela e metabólica ilusão.

Quais os ritmos das falas dos cães

E dos latidos dos homens?

E das mulheres?

Para quem as redondilhas maiores,

E as menores, e os heroicos e os sáficos?

Sobretudo inumeráveis são os ritmos.

Permaneço lento como o sol matutino,

Tentando despertar,

Mas quase livres, quase brancos.