quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O fake do fake mimetiza a parrhêsia perdida,

A parúsia vendida, a verdade imiscuída

Em suas próteses, dispositivos, tecnologias.

Promiscuídas, as múltiplas faces

Tindérias, Tágides da rede,

Me prometem o Paraíso

Para o exercício de meu cinismo,

Sem que nenhum istmo ismo

Vanguardize ou preencha o abismo.

Parrhêsia, parúsia: paralisias.

domingo, 12 de abril de 2020

SEM TÍTULO (O ALCOVITEIRO DA MORTE)

O alcoviteiro da morte
Me convida para sair.
Covid, para onde ir?
Coronal, flanar
Sentindo a fosforescência
Do mal,
Como antigamente,
Com espaço para,
Mais detidamente,
Ser seduzido pelo viço
Da mercadoria que sobrou?
Ou, coronários, circular
Por caminhos desabitados,
A não ser
Pelo cimento e edifício
Do que ainda forma
Não tomou?
Flanar utopicamente,
Sem saber se o futuro
É solidário
Ou se, no Capitalismo
Ou no Socialismo,
Lutaremos
No apocalipse zumbi,
Que por ora o assisto
Na Netflix, aqui?
Ou contar os mortos
Que o desemprego já matou?
Alcoviteiro,
Outro filme me chama:
É sobre epidemia
E quarentena.
Tanta mise en abîme.
Uma pena. 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

SEM TÍTULO (É UM TANTO TRISTE VER, SOLITÁRIAS,)

É um tanto triste ver, solitárias,
As teias das aranhas.
Seu esmero desperdiçado,
Detalhes espicaçados,
Insetos endurecidos,
Dispersos e não ingeridos.
Mas mais tristes
São as teias sem nem eles:
O trabalho e a beleza
Deixados como presentes
De artistas mortos
Ou misteriosamente evadidos.



terça-feira, 7 de abril de 2020

SEM TÍTULO (EM TONALIDADE DE ENLUADO LUTO,)

Em tonalidade de enluado luto,
Cuckquean atravessando a noite devassada
Por luzes entrefolhas penetrantes
Como chifres de fêmea unicórnio.
Córnea passante (a lua, a cuck),
Musicista do salto alto flautino
Esperando a faca de Chucky,
O brinquedo assassino... ainda quedo.
Queen of the stone age, primitiva,
Ou arcaicontemporânea como bélica
Kaiowá em Brasília, flecheira.
Os feixes de luz manipulam seu desejo:
Entrefolhas das janelas, das árvores,
Dos bares, bebendo o absinto
Da claridade bêbeda dos lares, a rainha
Passeia nas calçadas, nas aleias,
Como se sonhasse com sangue, sedenta,
Destilando aguardentes na boca,
E, mirando profundamente no imo
Do enlace das sombras, o inequívoco palor
De um poliamor vampiro.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

SEM TÍTULO (AS IRMÃS DE COLEIRA)


As irmãs de coleira
Dividem a ração
E inspecionam o canil.
Decoraram a dissertação
De Luciene Galvão
Viana, e se excitam
Via perspectiva pós-estruturalista
De inspiração foucaultiana.
“Monogamia é tão démodé”,
Consta na descrição no FetLife,
Que ambas recitam mecanicamente
Como legenda em cada
Selfie, seja hard, seja mais light:
Em uma iniciativa meio rara,
Postam um reverse blowbang no Insta
Como propaganda do pack,
Para que o Dom compre
Uma ração mais cara.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro...     
(Mário de Andrade)

O clowncel pintou
Os cabelos de verde.
A mãe não aprovou,
Mas não importa muito.
De noite, faz um jogo
De luz e sombra
Com os postes iluminados
E com as árvores das calçadas:
No claro é Coringa sorrindo,
No escuro é Pennywise
Se transformando em algo
Que o clowncel nunca será
Se o dia amanhecer,
Se lavar o rosto,
Se tirar a tintura,
Se retirar a máscara no espelho
Sempre mascarado,
Fragmentado e traumatizado.
Pennywise, no escuro,
Pensa em como seu pênis
Poderia mutar.
Mas arlequinas
Não existem mais.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

POR AÍ


Cheirou o pó na mão da amiga,
Engoliu a bala na mão da ficante,
Com o psytrance vibrando na mente.
Com a ficante e a amiga
Beijou os beijos triplo, quádruplo,
Quíntuplo, sêxtuplo...
Não foram tão fáceis,
Assim como a sêxtupla camada da realidade
Não apareceu tão definida,
Mas mais como CO2 sublimado.
Se esqueceu se tinha 12, 13, 14, 15, 16 ou 17 anos.
Estava nessa faixa, nesse espectro,
E o espectro do esquecimento
Fez com que assumisse todas as idades.
Não sabe como chegou em casa.
No dia seguinte não o soube.
Soube, sim, que precisava ir a uma
Instituição chamada escola,
Segundo sua suposta e, naquele momento,
Provisória mãe.
Pela idade das chamadas colegas
Se lembrou de que deveria ter
Entre 12 e 13 anos.
Por aí...