domingo, 27 de março de 2016

SEM TÍTULO (UMA DOMINATRIX DE PERNAS MECÂNICAS)

Uma dominatrix de pernas mecânicas
Chicoteia uma pony girl
Para comer as fezes de uma musa
De freakshow com cicatrizes por todo o corpo.
Não há só uma Santíssima Trindade,
Pensa um voyeur sadiano
Que esboça – L’Unique – na mente
A própria morte, e em como será.
Apesar da inadiável referência cristã,
Quer uma morte com sabor clássico:
Baques secos do corpo mutilado por bacantes.
Euripediu opiniões, euripedeu outras.
Toda homenagem às Mênades leu,
Releu, interpretou e reinterpretou,
Todas as referências absorveu,
Até em Qorpo Santo, à luz
Do trágico em Nietzsche
Ou em mais alguma coisa que insiste
Em fazer o voyeur prorrogar
Sua morte e continuar assistindo à cena
Como um mecanismo autodestrutivo
Autorreprodutor, como um filme,
Ou simulacro, que não o deixe se matar,
Ser morto, nem nada sentir tão leve,
Nem nada tão forte, tão ácido;
A ponto do contemporâneo
Devorar tudo, até o clássico.  

SEM TÍTULO (UM PÓ FINO SE DEPOSITA NOS CÍLIOS)

Um pó fino se deposita nos cílios
Como no início em slow motion
De algum filme cult.
É noite, como sempre; ou como nunca.
O pó ciliar contrasta com o entorno
E também com outros contrastes.
Os cílios fazem pose sexy, posam nus,
Banhados em ouro, como arte corporal.
Quando um estranho se aproximou demais,
Os cílios pararam a sessão fotográfica
(Para uma revista invisível)
E tomaram uma postura de krav maga.  

quinta-feira, 17 de março de 2016

SEM TÍTULO (A TAQUIDRAMATURGIA)

A taquidramaturgia
Desse momento descompassado
Corresponde quase pari passu
Às virúleas vertigens
Que os odores alcoólicos
Firulam no ar adensado.
Um ataque lírico
Se presume, idealizado.
Quais os personagens desse drama,
Dentro daquele coração?
Pela respiração a trama
Não é linear, mas em constelação,
Com rupturas, descontinuidades.
Se o palco cair, desmoronar,
Ainda continuam
Quais possibilidades
De alguma peça continuar? 

terça-feira, 15 de março de 2016

CELEBRAÇÃO

Seu deus está morto.
O meu também.
Os jantamos.
O sangue no vinagre
Encharcando a salada.
Você preferiu não me beijar
Com os dentes ainda sujos.
O fio dental retirou
As últimas lascas
Do seu deus.
Nossos deuses
Foram para o esgoto.
Talvez continuem
Sendo, agora, espécies
De deuses do esgoto,
Como o sagrado
Que também se encontra
No fundo do poço.
Celebremos esse dia
Periodicamente.
Não o esqueçamos.

quinta-feira, 10 de março de 2016

SEMINÁRIO

O sol incomoda.
O espanejo um pouco:
Esboroa no ar
A sementícia,
Buscando dispersa
Germinar alguma semântica,
Sondando um espaço propício,
Um terreno, o sulco,
A versura.

quarta-feira, 9 de março de 2016

SEM TÍTULO (ESBATE NO SEU ROSTO)

Esbate no seu rosto
Uma religiosidade dúbia.
O sol ricocheteia leve.
Do lado oposto
A sombra ora uma lua.
Um lado acorda, vive,
O outro sonambula.
No seu corpo sempre habita
Mais de um deus;
Nele mais de uma seita
Se aceita, mais de um ritual
Circunvoluteia enquanto você
Se estende e se oferece,
Ou quando caminha.
Não há síntese alguma
Que você assuma.
É preciso que, oniabrangente,
O adorador
Esteja crente
(Dubitavelmente)
Em toda crença
Que você ressuma.   

terça-feira, 8 de março de 2016

SEM TÍTULO (LUCÍFERO FIATLUX: MANHÃ.)

Lucífero fiatlux: manhã.
O fluxo sanguíneo da tarde
Menstrua como uma imagem
Gasta que se evapora.
Uma aranha tece a noite
Com seus dispersos longos finos
Brilhos nos magros galhos
Das árvores vistos ao longe.
Fiandeira a quem se confia
O irretornável fiatnox.