terça-feira, 14 de maio de 2013

PÓS-TUDO


Desculpe pôr tudo.
Da próxima vez tomo mais cuidado.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

CHILDREN OF THE CORN


É tempo de colheita.
Colher o que de qual empreita?
Colher o fruto, colher o dia?
Nenhum Horácio flui como seiva
Nesta flor do Lácio.
E Orfeu? Órfão de Eurídice
Permanece cantando algo
No momento em que eu nada disse?
E se Orfeu for este órfão
Pedindo esmola amolando
Sua voz aguda no canto da calçada?
Esta questão é de minha alçada?
Nenhuma voz alcançada cede à lira
Uma esmola de verso
A não ser este e talvez não seja isto pouco,
Ainda que se confunda com a buzina.
Que seja o que resta no resto
Enquanto repasto que contenha alguma pasta
Nutritiva caindo dos caminhões de lixo
Que atravessam as cidades do mundo.
Talvez aquele órfão lamba esta pasta.
E o que pode acontecer?
Ninguém sabe.
Ele pode viver, pode morrer.
Penso em poesia e em políticas públicas agora.
Há algo mais para se pensar?
(Qual o aspecto de Perséfone?).
Toda colheita é maldita.
Mas colher o quê?
Que poder terrível sobreviverá o milharal?   

domingo, 12 de maio de 2013

Uma mulher passou e ajustou o sol com a mão como se fosse a lâmpada de um holofote. Ajustou de onde estava mesmo, no meio da calçada, sem esforço.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

CLARICE


Se a hora da minha estrela
Ansiosa pelo seu coração selvagem pela distância
Pudesse, lúcida e não lúcia,
Descer cadente ao passado no presente
Do desejo não mendaz de passar
Rente aos campos não frutuosos do desejo seu,
Eu, ateu que também escrevesse deus
Com minúscula, mostraria que a água viva
De nenhuma clepsidra pode fazer passar
A lembrança fixa do que é vago e vaga:
O mesmo desejo, legião estrangeira.

sábado, 4 de maio de 2013

PRAÇA


Há um espírito das praças.
Fauno das pequenas floras, das domesticadas floras
E famílias compartilhando filhos e fofocas.
As crianças brincam com o espírito das praças.
Correm ao seu encalço.
De dia é esta familiarização
De uma numinosidade um pouco mais cara
Àqueles que, à noite, se comunicam
No interior do espaço vazio da multidão,
Da pequena multidão.
O ambiente fosfóreo propicia e repercute
Uma dimensão de abertura
Onde se suspeita onde tanto o escuro conflui,
Onde tangencia e enlesma
Sem mácula tangível sua pressurosa espessura
Como uma só própria carnadura
Com a luz, com a luz da lâmpada,
A luz cristalizada do talher,
A luz mais fosca da xícara, luz fóssil.
Um homem come uma porção de grãos,
Um skater machuca o asfalto,
Um casal observa a piriguete rebolar
E o pretensioso perigo do seu olhar.
O espírito está feliz, acolhe todos,
Assalta todos com a sensação de estar em algum lugar.
Alguns sentem, outros melhor compreendem sentindo.
O poeta, já preguiçoso mas ainda poeta,
Enceta ver a estrela na xícara,
O olho de uma mulher no céu
(Mulher sentada em um banco)
E cria a partir desta relação um triângulo dinâmico
De rara iluminação
Com a qual passará uma parte da noite.
O comerciante pensa que viu jóia.
O maconheiro da praça já não vendo o triângulo
Até gosta; o espírito também o alicia
E após com ele se delicia no ritual
De uma santidade nóia. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

UMA METÁFORA FORA


Uma metáfora carmina sua boca.
Uma metáfora...
Pois sua boca se impressionou,
Ficou com a impressão de algo além dela nela.
Mas a metáfora só está na boca
E prejudicou a organicidade
Do todo simbólico que deveria ser seu corpo.
Metáfora deslocada,
De onde sua extra espessura?
Metáfora rosada, para camaleonizar a boca,
Esconder seu deslocamento.
Mas eu a percebo, e como camaleão
Lanço minha língua, que não a sorve.
Ela morde a boca, sangra os lábios,
E nada a demove:
Deslocada que não se desloca.
Vamos dormir...
Quem sabe amanhã, se tudo der certo,
Ela perde a espessura,
Como herpes tratado...
Carminada boca, já burana.

quarta-feira, 1 de maio de 2013


Há uma ciranda
Onde as crianças vem a ele.
Veem a ele como uma girândola
De verbos onde se fia
Uma teia de luz
Na qual se confia.
Girando ao redor
Só a sombra que dissipa
A luz.
A sombra também recende fé.
O que a criança
Adentrando a sombra
Encontra
Talvez pudesse não ser
Ínferas nostalgias
Nem feéricas promessas
Com terminações nervosas
Latejando nas batinas.
Confundisse talvez a sombra
Com uma luz que dissipa
A luz como uma sombra
E se encontrasse
Uma espécie menos obscura
De verdade.