quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Toda Esfinge finge,

Mas não como fingidor

Que finge dor.

Toda Esfinge –

Corpo,

Alma,

Deus,

Azul do céu,

Azul do mar,

Azul da flor –

Quer não extinguir

As águas do Estige –

Ainda que meandrem,

Labirentem –,

Represadas que sejam

Em única íris

Que irie

Único sorriso.

Sorriso e íris únicos,

Plenilúnicos

Do mistério

De uma efígie.

domingo, 2 de janeiro de 2011

MULHER DORMINDO

Seu sono assoma. Ora um mastro seu corpo condiciona, ao qual abaixo um lençol (de água) meu desejo convulsiona; ora ramos, ervas de seu corpo brotam e, profundo, mas na linguagem floreada das flores, murmura os segredos que as terras adotam. Seu sono modifica seu corpo, e o estabiliza como sumário de todas as mudanças. Seu sono faz de seu corpo andança, e logo o retorna no de uma criança. Já prevejo seu futuro mineral; seu corpo se decompõe, mas retoma o estado fetal. Seu sono cicatriza seu corpo com arabescos lácteos: esgares, sorrisos desdentados de todas as viagens, épocas e idades. Seu sono faz de seu corpo (cálido e calado) discurso, alegoria – bíblica, contemporânea. Seu corpo é negro, seu corpo é pálido. Seu corpo é repositório de lembranças, vagantes com o vento nos cabelos, vacantes como de seus olhos os irrefletidos desvelos. Seu corpo é relicário de sonhos de outros sonos. Seu corpo é sudário, onde as linhas de seu linho são traçadas por meu dedo imaginário. Como seu corpo pertencer ao meu corpo refratário? Como seu sono cessar seu curso tributário? Seu corpo é um afluente que minhas veias ousaram (tentaram). Absorver.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

De onde a paixão do detalhe? Que orienta certo Oriente? Que prodigaliza e rebaixa certa ninfeta? É questão de detalhe toda morbidez, é priápica a perscrutação de sardenta tez, isto é, de sardas uma de cada vez, e de preciosismo de pedras, tecidos, estilos, com torcicolo ou com estilete?, filete de luz, réstia de azul, resto de alimento no canto do prato? De onde o súbito parto das pequenas coisas, que se avolumam, outorgam soberanas o domínio da atenção, a lente do foco, assoberbando como uma infecção, metástase in loco, rebanho, tropel, enxame, exame de pontos, vírus, bactéria, icário ácaro, cárie na ponta da língua, ou melhor, ponta da língua na cárie (e não importa o tamanho do caralho?)? Unha infantil no canto da pia, na extremidade do vaso sanitário, mosca em teia de aranha no último caule da última planta do orquidário? É de semente em semente que o solo sente que assume o poder.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O BOLO

- Querida, já cheguei ao ponto definitivo de te amar da forma como entendo o grande amor, o amor com o qual eu sonho – confessou à mulher, dolorido, despertando-a de um sonho incompleto às duas horas da madrugada. Seus olhos aturdidos, semiobservando as rugas da testa algo transtornadas do marido, não conciliaram com as palavras ditas com certo tom de fatalidade enrustida, desesperada, o que acabou por não atingir, nos olhos dela, o efeito pretendido, revelando, ainda nos mesmos olhos, uma sensação de estranhamento advindo também da sonolência, mas prioritariamente da incompreensão momentânea de certas expressões utilizadas pelo marido. Mas logo se revitalizou sua compreensão. Decifrou o enigma, que de tempos em tempos, durante todo o período de casada, reassombrou os diálogos, as carícias, as promessas futuras.
- Digamos, querido, que cheguei ao ponto de considerar com bastante carinho – respondeu lacônica, porém com laivos de delicadeza afetiva. Só não apresse o percurso de algo que nem nós às vezes temos a certeza de compreender tão claramente - finalizou.
Os olhos dele conciliaram com as palavras ditas. Suas rugas retrocederam o esgar.
No café da manhã ambos se alimentaram com gestos compartilhados; um sorriso tímido instigava outro. A paixão pelos gumes, o deslizar da faca no pão (uma faca para cada um, diversa uma da outra), as típicas preliminares da margarina e da geléia antes de se levar algo à boca pronta para, com mil martelos e serras, aniquilar, ou melhor, tornar sagrada a coisa enviada ao estômago, fixavam-se nas retinas e no pensamento de ambos. Por um momento, ele sentiu como se o estômago e a língua de sua mulher estivessem adquirindo vida própria. O estômago brincava de forma sutil, ronronando, remexendo-se um pouco, salivando como uma criança recebendo doce. Uma pequena criança docemente devoradora. A língua odaliscava um pouco, em tom provocativo. Dançava com o abdômen lubrificado de margarina, liso e evidente, em circunvoluções perceptíveis para um homem somente, um Herodes particularizado, em um trono parecido com a cadeira de uma mesa de cozinha.
Beijou a odalisca anã e se dirigiu ao local de trabalho: o açougue. Lá, cortou as carnes com um sentimento renovado. Nunca os nervos foram tão ramificados, o sangue tão rubro, os ossos tão inseguros. Recordou, com avidez afetiva, um dia em que sua mulher se feriu fazendo a unha. Feriu o dedo de modo muito suave, mas o suficiente para ele mimá-la com preparativos de assepsia, cuidados de esparadrapo e beijos... Nunca o sangue tão rubro.
Porque ela ainda não lhe tinha desejado as felicitações (era seu aniversário), ao invés de se ter magoado, suspeitou que lhe iria proporcionar alguma surpresa, como em alguns aniversários anteriores. Fingia que se esquecia do dia especial e preparava de antemão um delicioso bolo e/ou guloseimas várias. Ao chegar em casa extenuado, mas extasiado sem saber muito bem por que, uma comoção ainda mais singular assaltou seu organismo, aumentando a excitação. Encontrou em cima da mesa da sala de estar o maior bolo de chocolate que vira em vida, repleto de cerejas estufadas e muito vermelhas. Sua mulher surgiu do corredor com as mãos para trás com o sorriso tão apetitoso e com os lábios tão acerejados quanto o bolo. A comoção dele também reverberou em um largo e satisfeito sorriso, enquanto ambos olhavam fixamente para a vela que representava o número um dos seus recém-feitos quarenta e um anos.
Do lado do bolo, o cutelo ansiava por cortá-lo em mil fatias.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Era ator. Seu nome – Estêves – era mais uma máscara; sua identidade era cambiante, à margem de todos os câmbios. Abastado... de cabelos e de aparições, soltas como os cabelos. Aparecia, às vezes como aparição mesmo. Aparecer passou a ser uma forma de existência. Nunca ser, sempre estar; naturalizar (ou não) o estado de processo, o processo do inacabado, o percurso do incompleto. Ser – expressão por demais complexa – parecia-lhe muito pouco mutável. Onde estava o ser? O ser precisava aparecer. E aparecer era a melhor forma de estar. E ele esteve vida afora. Esteve engraxate, ainda estando criança; esteve mecânico, já estando maior; esteve pequeno empresário, já estando um pouco maior; esteve falido, estando novamente menor. Acordava (ora em uma cama ora debaixo de jornais) e se assustava às vezes com a mutação no espelho (ora inteiro ora despedaçado). Nem sempre havia tempo de laboratório para a mutação de cada dia, mas logo acompanhava a peça e adquiria mais experiência. Esteve em circo: palhaço oficial da sociedade industrial. Esteve em mal caminho, pois é difícil andar reto em esquinas tortas. Por fim, um grande diretor abriu vagas para interpretar um anjo. Ele se inscreveu sem titubear. Ganhou o papel. Ninguém assistiu, mas esteve em sua mais comovente e convincente performance.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

REFEIÇÕES

I

Onde a mulher de três seios?

Procuram no covil dos anseios
A transparência das veias
A perfeição disforme dos meios
Que talvez alimentasse a lactância
Que banharia a vil criança...

Onde a perversão dos sulcos
A degustação dos sucos
O doentio cuidado, a cínica complacência
Que possibilitasse sujar
A fralda com outra profícua essência?

Onde a mulher de três seios?
A criança famélica
Quer idolatrar a mais completa mãe.

II

Como craveira
O sabor incomum.
Esboço, caveira
De um enxame
De moscas
Presas em paragem traseira.
Aracne giganta
Elaborou esta teia?
Aracne eu,
Como.

TAMPA DE VIVEIRO

Tarântula de fogo.
Espirro de cerdas.
Fênix barbada.
Uma leve fissura
E a vingança do verde
Apaga a queimada.
Destas cinzas
Não se renasce.