segunda-feira, 26 de julho de 2010

ESCARIFICAÇÃO

Sem pele,
A carne elege
O vermelho
Como estética.
Ave sangüínea,
Que no ímpeto
Do vôo
Se esforça
Com irritação.
(Voar é mesmo
Desejo à flor da pele.
Não, abaixo dela).
O canto
É uma infecção.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Lesto o resto, presto,
E eu, algo mesto,
Meço o mosto
Requesto pelo momento
Em que gesto
Meu reino de sono.
Sou lânguido.
E com certo exibicionismo
(É certo)
Estar no mundo é erotismo.
O conhecimento que experimento
Não é só eficaz ungüento,
Mas é infesto ao resto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

NULIFICAÇÃO

I

Tudo o que era caduco, alquebrado –
Brinquedo quebrado, espelho partido –
Já anunciava a aventura da cesura,
Suturada na carne, mas como ferida sem cura.
Tudo que ausência poderia, soltura,
Onde a agrura se rende ao prazer do que desprende;
Tudo o que, assente, anula.
Sonho de menino: eunuco.
Com amigo de ocasião, aquilo ceou
O que um do outro roubou.
O amigo, de desejo transtornado,
Mordeu também o pescoço, já decepado.
Não foi para o Paraíso: as asas cortaria.
E no Inferno, quantos membros ainda havia?

II

Co mo es cre ver s em o s bra ços ?

III

A beleza se encontra
Nas mulheres sem braços.
Ao vê-las: libação.
Braços de Vênus: onde estão?

terça-feira, 13 de julho de 2010

ESTADO DE GRAÇA

Casaram-se há cinqüenta anos. Há cinqüenta anos se torturam, mutilam-se, aniquilam-se física e moralmente. Após os conflitos, às vezes se perdia um dedo, uma orelha, um dente. Ela não tinha um olho, mas permanecia com seus belos traços abaixo das chamativas cicatrizes, mesmo na velhice. A humilhação não ocorria somente no momento agradável do sexo, mas igualmente no momento desagradável das relações sociais e cotidianamente familiares. Assassinaram o filho antes de nascer. (Talvez para não tê-lo assassinado depois?). Ele claudicava, mas a memória de sua boa postura se esforçava para equilibrar a antiga elegância e leveza. Tinham traumas, síndromes e fobias. Um pouco antes de morrer (agonizaram em mesmos dia e hora), abraçaram-se, choraram, amaram intensamente, como sempre, e rogaram a clemência do Senhor. Ela disse, entre lágrimas, que foi feliz, mas foi triste, pois queria ter sido prostituta ou freira. Ele disse, entre lágrimas, alguma outra coisa sem importância, ou melhor, de toda importância, pois estavam em estado de graça.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Lavrar a palavra
Para que ela lavre
A insistência de penetrar a existência;
Sendo que, antes,
Já palmilhando fresta, brecha, intermitência
Logrou a máscara produto
Das matérias que, agora,
Cumpre ou deseja retomar como solúveis,
Ainda que por força de autonomia;
Esforça a passagem
Como a deixar nostalgia do branco
Em uma condição de presença arredia,
Rememorando o rastro devassado
Mas sem de Ariadne alguma previdência
Haver indiciado.
Então labirinto,
Taurino obstáculo anuncia
Que heroísmo se faça premente.
Mas anuncia, somente.

GORGÔNEA

Abstrusa musa
- Musa e medo.
Medo que usa
A pedra como meio.
Que recusa qualquer enleio,
Ainda que multiplicado pecado sugira
A ofídica figura.
Mas toda ira já não me causa receio.
Receio do bordão
Da pedra no seio,
Ou melhor,
No coração.

OS DEUSES

Pobres imortais!...
Os deuses não sentem o prazer
Da vida passar.
A volúpia da decomposição
Pressentida no corpo que,
São, observa, mesmo em pranto,
O outro (é o outro que nos revela a morte)
Eufemismado por flores
No sepulcro.
Eufemismado em aspecto, odor, comportamento
(Não ir ao supermercado).
Este pranto, a volúpia no avesso,
Sonha incorporar ao solo,
Pelo sal,
O corpo vertical.
Os deuses não despertam o prazer
Do prenúncio do fim
Após orgasmo -
Abraço fundo com mistério
Rebuscado.
Os deuses não intuem o prazer horizontal.
Não quero perenizar esta consciência intermitente,
Este engenho sutil, esta volúpia.
Não.
Eu quero morrer!...