sábado, 9 de abril de 2016

SEM TÍTULO (SEU SUOR DELICADO,)

Seu suor delicado,
Uma porção
De luz salgada
Que minha língua
Usa como guia
Na escuridão.

terça-feira, 5 de abril de 2016

LENDA URBANA

Veloz Lolita
(Ainda hoje
Com lollipop),
Lançava olhares,
De cima do skate,
Como loops
De alguma música pop
Para seus amigos skaters.
Já teve Pool Riding,
Hoje quer Big Air.
Antes, no FreeStyle,
Suas sequências
Trouxeram amizades
E haters.
Os amigos têm saudades
Da lépida fada
Intrépida no street.
Ano passado,
Dizem as lendas
Que a reviram
Na cidadezinha
Fazendo, free,
Uma sequência
Em busca de manobras
E rimas perfeitas:
Kickflip,
360 flip,
Inward heelflip,
Hardflip.
Depois manobrou
Um beijo
E sumiu rapidamente
Ao som de algum hit.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

SEM TÍTULO (AGORA, COM NOSSOS DEUSES MORTOS,)

Agora, com nossos deuses mortos,
Ou melhor, ausentes,
Podemos amar no poema.
Podemos dilacerá-lo,
Fazê-lo vibrar em todos
Seus recursos e procedimentos.
Agora, podemos compreender
Que o poema faz o amor,
E que tudo o que você sente
Já antes foi testado
Em alguma rima,
Métrica ou som motivado.

quarta-feira, 30 de março de 2016

SEM TÍTULO (A POLINIZAÇÃO DO MARACUJÁ É ATEIA.)

A polinização do maracujá é ateia.
A teia da aranha é sagrada.
O pôr-do-sol que se põe morno é ateu.
O odor do pão com a cevada é sagrado.
A chuva pusilânime, mas que fecunda, é ateia.
A aleia ao redor do boleeiro é sagrada.
A escarificação das plantas pelas crianças é ateia.
A multiplicação dos peixes na mesa é sagrada.
Os milagres nos corpos são ateus.
Os deuses abismados nos detalhes são sagrados.
As diatribes da sombra refrescante são ateias.
As deturpações das cores na retina são sagradas.
A mística cotidiana é ateia.
Os catadores de lixo na mística cotidiana são sagrados.
A biopolítica animal é ateia.
Os cabelos compridos na cama são sagrados.
O sagrado das emancipações populares é ateu.
O ateísmo das frutas doces é sagrado.

terça-feira, 29 de março de 2016

SEM TÍTULO (UMA ROTA DE LUZ ATINGE A SOMBRA.)

Uma rota de luz atinge a sombra.
A rota dos meus olhos atinge ambas,
Mas ambas não veem.
No escuro um teatro se manifesta,
Começa a se encenar sem atores,
Sem palco, sem público:
Assim parece para os atores em falta,
Para o palco em falta,
Para o público em falta.
Uma língua de luz,
Como se quisesse lamber intestino,
Minimiza uma peça minimalista
E se intestina no escuro.

SEM TÍTULO (O MONSTRO DO SEU CORPO)

O monstro do seu corpo
(Todo corpo tem o monstro)
Convive com o sagrado do seu corpo
(Todo corpo tem o sagrado).
Posso sentir a convivência.
Esse sentimento talvez possa
- Se a convivência sacrílega
For embalada por uma espécie de oração
Que atinja todos os órgãos -
Se chamar amor.

domingo, 27 de março de 2016

JOGO DE DAMAS

Blanche Dubois,
Blanche Dumas.
Duas damas.
Através de um
Jogo de damas,
Uma suplantando
A outra, ocorreria
Uma fusão entre
O teatro de uma
E de outra?
O que tanto Dubois
Aproveitaria do corpo
De Dumas,
E Dumas da mente
De Dubois?
Ou vice-versa?
Qual a metamorfose
Das duas Blanche
(Agora corpo e mente
De ambas,
Só peças blanches?),
Até que só uma se tornem,
E essa seja mais uma
Metamorfose entre outras
Tantas, até que o teatro
Do corpo e da mente finde
Com o fim do jogo de damas?