quinta-feira, 17 de março de 2016

SEM TÍTULO (A TAQUIDRAMATURGIA)

A taquidramaturgia
Desse momento descompassado
Corresponde quase pari passu
Às virúleas vertigens
Que os odores alcoólicos
Firulam no ar adensado.
Um ataque lírico
Se presume, idealizado.
Quais os personagens desse drama,
Dentro daquele coração?
Pela respiração a trama
Não é linear, mas em constelação,
Com rupturas, descontinuidades.
Se o palco cair, desmoronar,
Ainda continuam
Quais possibilidades
De alguma peça continuar? 

terça-feira, 15 de março de 2016

CELEBRAÇÃO

Seu deus está morto.
O meu também.
Os jantamos.
O sangue no vinagre
Encharcando a salada.
Você preferiu não me beijar
Com os dentes ainda sujos.
O fio dental retirou
As últimas lascas
Do seu deus.
Nossos deuses
Foram para o esgoto.
Talvez continuem
Sendo, agora, espécies
De deuses do esgoto,
Como o sagrado
Que também se encontra
No fundo do poço.
Celebremos esse dia
Periodicamente.
Não o esqueçamos.

quinta-feira, 10 de março de 2016

SEMINÁRIO

O sol incomoda.
O espanejo um pouco:
Esboroa no ar
A sementícia,
Buscando dispersa
Germinar alguma semântica,
Sondando um espaço propício,
Um terreno, o sulco,
A versura.

quarta-feira, 9 de março de 2016

SEM TÍTULO (ESBATE NO SEU ROSTO)

Esbate no seu rosto
Uma religiosidade dúbia.
O sol ricocheteia leve.
Do lado oposto
A sombra ora uma lua.
Um lado acorda, vive,
O outro sonambula.
No seu corpo sempre habita
Mais de um deus;
Nele mais de uma seita
Se aceita, mais de um ritual
Circunvoluteia enquanto você
Se estende e se oferece,
Ou quando caminha.
Não há síntese alguma
Que você assuma.
É preciso que, oniabrangente,
O adorador
Esteja crente
(Dubitavelmente)
Em toda crença
Que você ressuma.   

terça-feira, 8 de março de 2016

SEM TÍTULO (LUCÍFERO FIATLUX: MANHÃ.)

Lucífero fiatlux: manhã.
O fluxo sanguíneo da tarde
Menstrua como uma imagem
Gasta que se evapora.
Uma aranha tece a noite
Com seus dispersos longos finos
Brilhos nos magros galhos
Das árvores vistos ao longe.
Fiandeira a quem se confia
O irretornável fiatnox.

segunda-feira, 7 de março de 2016

SEM TÍTULO (PERCORRO SEU CORPO.)

Percorro seu corpo.
O seu o meu percorre.
E o discurso ambíguo
Nos torna bífidos
Ao soar o que nas entrelinhas,
Sutil, imperceptil,
E ressoar nos palavrões
- Palavras de baixo calão
Como alto escalão
Do prazer: prazer que,
Entre discurso e prática,
Indica que o amor
É algo grande demais
Para que não esteja
Infiltrado no infinito
Do corpo, essa fronteira
Tão devassada
E tão opaca.

quinta-feira, 3 de março de 2016

SEM TÍTULO (COMO UM COXIM)

Como um coxim
Suave ao toque
- Arquitetura de lírio,
Pomba em delírio
Que apupa
Tudo que não adora
O dórico
Que em sua pele
Mais doura
Que empalidece,
Como um coxim
A coxa
(A parte um pouco
Antes do quadril)
Que fará Dioniso
(Ou qualquer um
Da puta que o pariu)
Matar qualquer coxo
Do pensamento
Que escarrar
No mármore
De Carrara
Que, suave e quente,
O tédio
De qualquer enfado
Enfara.
(E a morte
Será um preço módico).