sexta-feira, 15 de agosto de 2014

UMA NOITE

Escôndita lua,
Há um lírio em sua boca
De tímida prostituta?
O litígio dos cães na rua
Me assusta
Através do látego do latido
Ardido que caçoa
Do meu passo medroso.
Quanto, por uma noite,
Você cobra, lua? 

A ESCONDIDA

Meus dedos
Penteiam o fogo selvagem.
Vertiginam o fogo.
O fazem sangrar.
Uma cabeça de fogo
Engana a noite
Fingindo ser o nascer do sol.
Meus dedos
Chamam a chama.
A pele arde luz.
O discurso fosfóreo
Do fogo acende
O desejo da noite.
A noite é uma mulher alegre
Tendo um orgasmo escondido
Em nome da preservação
Da imagem
De seu eterno luto.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ALVORADA

Um pássaro pia.
Modaliza os sons.
A claridade acústica
De sua boca
Cria uma imagem
Que contrasta
Com a penumbra exterior.
A boca do pássaro
É como a pedra:
Guardiã do fogo.
O mito continua voando.
O bico perfura o tempo.
Pia o dia pio.

MÃOS

A mão do roceiro,
A aspereza do seu trabalho,
Marca a memória da mão
Que a segura.
Às vezes chega ao ponto
Da mão que a segura estranhar
A própria superfície lisa.
A mão do roceiro
Ensina à outra mão
Que um mero toque da pele
Já revela uma vida diferente. 

PEDIDO

Se eu carpi, Carpinejar,
A defeituosa flecha
De Cupido,
Foi em grande parte
Das vezes, confesso,
Irônico meu pesar.
É bom poeta,
Assim como o pai Nejar.
Seja menos profeta
De menina
Que nem o lê,
Mas não para
De para você chorar. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

TENTAÇÃO

Elas vestidas como nazista.
Eu, judeu e comunista.
Um aposento, câmara de gás.
O gás, dos corpos delas,
Plenos de Luftal.
Acordo excitado e assustado.
Na cabeceira, leituras
De Hitler, Sade e Marx.
Não as misturo mais.
Ou então talvez mais uma vez.
Mais uma vez não fará mal.

UM BOM GOLE

Pisca prisca
Na íris da memória
Uma estrela.
Estala mudo
O florescimento
De uma rosa
Em um safaresco
Recôndito da memória.
Um califado
De sensações distantes
Reassume o poder
Através de um golpe.
Que cornija sustenta o céu
Desta memória,
Que às vezes dura
Como ouro fluido
Tomando as margens
De assalto?
De onde o brilho
Tão brocado?
Hoje, por um momento,
Bebi embriagado
O não mais tantálico ouro.