segunda-feira, 7 de julho de 2014

MITOLOGIA

É impossível amar uma mulher
Sem amar, de algum modo,
Também sua mãe.
Como não amar os traços essenciais,
As sutilezas genéticas,
O desenrolar da narrativa genealógica?
Traços essenciais:
Mirar a mãe como um Miró
Apaixonado pelas origens,
Mirar a filha como reincorporação
De um mito fundante.
Como não amar a vida
Da filha na mãe,
E a vida da mãe na filha?
E se a filha tiver uma filha
(Do apaixonado do poema
Ou de outro apaixonado
Que não do poema, mas no poema),
Como também não amá-la?
O amor só pode ser
A continuidade de uma mitologia.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONVERSÃO

A face de Jesus
Se revela em uma flor
E estabelece comunicação
Entre as outras flores.
Jesus, este pássaro dócil
Que voa como uma pena,
Morde meu coração
E se suja de sangue:
Ato de amor.
Jesus tem de se afogar
No sangue do homem.
Tenho prazer em sufocá-lo
Em seu ato de amor.
Meu sangue verte,
O afogo e me converto.
A sensação é a de quem
Amou a vida inteira uma mulher
Que nunca encontrou,
E mesmo assim
Se dá ao luxo de sentir
Alguma significativa paz.

NEFELIBÁTICA

Uma nuvem performa.
O que uma nuvem performa
É sua própria forma.
A nuvem se lê.
Lê aquilo que ela nela deforma.
Seu efeito narrativo
É fragmentário e lúdico.
A nuvem é uma Marina Abramovic
Sem sangue.
A nuvem tem muitos espectadores,
E poucos espectadores.
Poucos que a valorizam
Como artista nata.
O vento colabora
Com suas apresentações.
Performance interativa
É quando chove. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

RITUAL

Como uma sereia
Nadando no poema.
Séria, sedutora.
Nadando na linguagem,
Sorrateira, promissora
De que seduzirá
O leitor, o poeta
E o próprio poema.
Seduzirá com o canto,
Com a textura,
Com a versura
De cada coreografia
De nado sua.
Mutando na linguagem,
A sereia será logo ninfa
Nesta linfa.
E chegará o momento
(Sempre chegará)
Em que será Cila.
Cila da leitura
Que em ciclo oscila:
O poema é um ritual. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

COPA VERDE-AMARELA

Driblou a esquerda,
Disparou pela direita
E fez o gol
pe.

SEM TÍTULO (UMA COLEÇÃO HETERODOXA)

Uma coleção heterodoxa
De corpos espargindo
Ora eucalipto ora hortelã
Assombra minha visão
E minhas narinas.
Onde esta inevitável floresta?
Uma das criaturas femininas
Copula com uma árvore,
Olha para minha
Situação voyeur e baba.
Sua saliva é um doce,
Uma calda de hortelã
Quente e protetora,
Uma bala que embala.
Onde esta inevitável floresta
Que esverdeia minha íris,
Que confunde a cor de meus olhos
E que idiossincrasia
Minhas narinas?
Que floresta é esta?
E este som?
Sonha um vento verde
Em meus ouvidos. 

SEM TÍTULO (A FRENIA COM FRIO)

A frenia com frio
Procura abrigo.
Se abriga no fio
De uma navalha
Suja após uma briga.
Se abriga no sangue,
Em seu calor que já esfria
Com o frio que nenia.
Tudo se passa
Como em um filme,
À fria distância.
Calmo, leve, suave.
Só a lua, esta linda anemia,
Policia.