quarta-feira, 21 de maio de 2014

SEM TÍTULO (SEU GESTO)

Seu gesto
Meio mecânico
Toca
Um pavão leucístico.
Uma onça-preta
Agita as camadas escuras
Da noite,
Caçando uma heurística
De disponibilidade.
Uma mariposa
Pousa no pé da mulher.
Posa para uma fotografia
Imaginária.
O azul assombrado
Repica
O rosto da sombra.
O azul melânico.
A mariposa
Faz a sombra voar.
O azul
Engravida o ar
E se comunica
Com os pulmões da mulher
Como se fosse
Uma novidade
Que respira a promessa
De outras novidades.

SEM TÍTULO (MEU ATENTO SISO)

Meu atento siso
Sutilmente capta
O ricto de seu riso
Abençoado de eucalipto:
Rito de passagem
Para uma espécie
De experiência totalizadora.
Reincido
Neste prazer
De ilusão extática
De felicidade,
Incisivo
Em alimentá-la.
Que funda verdade
Pode haver
Neste riso impreciso
No meio
De duas luas azuis
Imaginadas?
Que verdade funda
Esta sensação
De que existe uma verdade
Em qualquer mentira
Em que se aprofunda?  

terça-feira, 20 de maio de 2014

REDESCOBERTA

Odiava futebol,
Nunca marcou gol,
Mas jogava handbol.

Dizia que Hugo Ball
É um poeta genial.

Dizia que Andy Warhol
Não criou nada legal.

Só nadava nado crawl.

Então levou crau no metrô:
“Meto
Porque você tem pra mais de metro”.

Denunciou, nada virou,
Virou do avesso,
Nada adiantou.
Ninguém alguém achou.

Contou para o amigo.
Ele não achou nada demais.

Contou para a amiga:
“Sua saia tem de ser mais...
Normal”.

“Vou ao psicólogo,
Senão enlouqueço”.

“O abuso te traumatizou”?
“Não, animal.
Aqui estou
Porque sonho com Baal
E tenho fetiche canibal”.

Para a família não contou:
O pai talvez a culpasse
Pelo que não evitou,
E se envergonhasse.

“Não mereci”.
“Mereceu. Facilitou”.

“Não mereci”.
“Mereceu. Facilitou”.

Pensei em dizer que se matou.
Mas não...
Virou feminista ativista.

Sem mais
Paronomásia e trocadilho.
É sério:
Redescobriu o seu caminho.

sábado, 17 de maio de 2014

SEM TÍTULO (CÉU DESLOCADO DA RETINA.)

Céu deslocado da retina.
Folheado.
A retina e o escuro da boca.
O céu recorda uma floresta.
Ele, arvorecendo,
Adormece com os últimos ventos.
A árvore adquire,
A meia distância,
Uma meia luz cerúlea.
A boca se fecha.
A retina sonha.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

POÇA

Música, escondida,
Faz minhas flores crescerem
Como uma catedral da água, recuperada.
Boia uma sensação tépida
De pele de mulher grávida.
Há musgo nos meus olhos,
Que retiro espanando o vazio.
Minha boca fica com fome de flores,
Mas logo o desejo arrefece.
A catedral é lenta,
Mas pacientemente se ergue
Alaranjada, esverdeada.
Um pássaro arisca no chão
E a bebe como poça de água.

terça-feira, 13 de maio de 2014

HÁ MAIS DE UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA

Mulheres escarificam poemas em seus corpos.
Os poemas sacrificam danças e encenam rituais.
Sua polissemia dançante elabora uma hermenêutica
Da idade das civilizações na pele,
Ao mesmo tempo em que uma idade única
É refundada a todo momento.
Os poemas performatizam os corpos,
E os corpos se escrevem.
Toda escritura é em vermelho.
Há sangue em cada poema
(Não somente uma gota).
Os olhos preciosos das mulheres
Acendem seus poemas na escuridão.
Elas recitam as dores e as alegrias dos poemas
Que (as) conduzem rasgados no corpo.
Elas andam com a respiração do ritmo
De quem fosse a máquina do mundo...
Pode(m)-se dizer que são.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

PILATOS

Irmãs siamesas que trabalham como dominatrix.
O sonho prismático do cristal.
Um sentimento com ornamentação de hibisco.
A memória subjugada por um aroma incongruente.
Faça alguma analogia, o poema é seu.
Eu não me arrisco.