segunda-feira, 12 de maio de 2014

CONFRONTO

Um besouro besuntado em ouro
Observa, da cerca, a lua perdida
Ovalando o testículo de um boi.
Uma criança, comendo flor,
Acaba comendo um pouco de terra.
A criança, terráquea
Como nunca antes houvera.
O boi lança um olhar infantil
Para ela, com olhar de fera.
De cabelos e dentes sujos,
Confronta o olhar dele,
Tendo ao lado seu cão,
De quem o brilho de um olho já se foi.
A criança sorri
Para a mansidão do animal maior,
Se põe em quatro patas
E vai embora
Ao lado de seu companheiro de caça.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SEM TÍTULO (UM CALAFRIO DE TARÂNTULA)

Um calafrio de tarântula
Está procurando aconchego
Em algum corpo avulso.
Percorrendo afoito
Alguma janela,
Alguma fresta.
Correndo cantos,
Cala o assobio
E o retoma no meio do frio.
Uma aflição aracnídea
Oscila mais a teia do vento.
O calafrio quer a desgraça
De ter um corpo.
A teia do vento recobre
Um mendigo
E o calafrio o pica
Como aranha que é.
Adormece em paz...
O calafrio.

SEM TÍTULO (O VENTO É UMA CORNUCÓPIA)

O vento é uma cornucópia
De frias carícias.
Frias, antigas
Como a palavra “cornucópia”.
Antigas, presentes, atuais
Tais e quais
Palavras gastas relidas
Ou novamente faladas.
Folhas voleiam fanadas.
Adentram quintais.
Se misturam com as folhas
Novas das casas
Friamente entardecidas.

SEM TÍTULO (OS CHIFRES DO TOURO,)

Os chifres do touro,
Espetando o sol.
Os cornos do Diabo,
Evocando a silhueta do sol.
O sol, como um touro despertando,
Mantendo a luz diaberta
A um novo hino.
O hino do Diabo, da luz e do sol:
Mais um dia
Na terra dos homens.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

SEM TÍTULO (ESTRELA PERFUMADA.)

Estrela perfumada.
Seu susto perpetua uma luz maníaca
Na memória da noite.
Seu perfume acre estipula
Uma bela e sinistra cantiga
De línguas agudas.
A memória da noite é uma serena
Aberração da vertigem.
Há uma nanoperformance
Ocorrendo nos bigodes
Do gato palhetando
O escuro com as patas.
Minha mão brincando
De pegar a estrela
Parece uma planta carnívora esdrúxula.
Fica perfumada.
Há uma suave
Sensação eólica nos vãos dos dedos.
Colírio prateado
Quase afoga uma formiga
Perto da grama
Com sutil ataque epiléptico.
Meu cão cochila um sonho
Que tateia minha perna.
Ela (e eu) também adormece. 
A dor de estalar os dedos
É quase erótica.
E não há só os dedos da mão.
Há os do pé,
Há estalos duplos do dedão.
Há o joelho...
Estourar oxigênio,
Dióxido de carbono e nitrogênio:
Prazer secreto
Da articulação.

terça-feira, 6 de maio de 2014

SEM TÍTULO (A POETA DEITA COM UM FOGO ROXO NOS OLHOS.)

A poeta deita com um fogo roxo nos olhos.
Hieróglifos acompanham o desenho dos seios.
Há marcas e luzes incompreensíveis no corpo,
Mapas rasgados enroscados nos cabelos,
Paisagens desérticas, dunas longínquas.
Bocas querem aprender a ler, a decifrar.
Ela boceja e uma massagem uterina
Incendeia o rosto das aprendizes.
Ela é um desenho azul marinho
Aberto ao labirinto da noite.
Há estrelas dentro de nós, somos estrelas
Quando falam a ciência e a poeta.
Há marcas de unhas e lábios
No óleo noturno decorado em sépia:
Técnicas da noite e da poeta.
Há uma margem de erro na decoração
E os erros são reapropriados
Pelo corpo dúbio e polissígnico da poeta.
Ela é de carne e osso.
Carne, osso, sonho, fogo, luz, deserto, folha...
A poeta intensifica o labirinto do corpo
E as técnicas da noite,
Que nela sobrancelha uma nudez carinhosa
Até que adormeçam em paz.