sábado, 2 de março de 2013

LENDA


A spooky kid
Virou groupie de uma banda
De gothic rock.
Grosso modo, engravidou
De modo grosso,
Apesar de dizer
Que nem toda groupie faz grupal.
Gangbang de banda
Requer DNA.
Ácido desoxirribonucleico
Não era seu ácido predileto,
Mas passou a disputar
A preferência.
Depois de feita a biografia:
Entrevista em revista.
Disse que foi feminista
Em sua época.
A maioria
Não engoliu a história.
Biografia triste:
Roqueira
Sem a glória da memória.
Um empresário
Disse que groupie era coisa
Do passado
E que a pornografia
Dava cabo do que se pedia:
HPV, herpes e tarja preta,
Logo nada que desconhecia.
Virou lenda
Da sarjeta glamourosa.
Se casou com um rockstar
(De outra banda
De gothic rock)
E o respeito apareceu.
Mas o rockstar virou crente
E disse que hoje tudo era diferente.
A groupie voltou
Para a sarjeta sem glamour.
Mandaram ir pastar
E virou pastora.
Montou uma banda
(De white metal)
E lê em grupo na escola
Onde estuda a filha.
Escreveu uma biografia...
Glória de Deus e da História.
O pai da filha
Morreu de overdose.
Mas não tinha mais rancor
Perante o Senhor.
Orou por ele, orou por nós.
Orou pela fé neste mundo atroz.

sexta-feira, 1 de março de 2013

PEQUENA PEÇA GÓTICA

Uma aranha anoréxica,
Arabesquenta –
Caricatura no início timburtônica
Mas que depois deu medo –
Achou que era
Uma bailarina de caixinha.
Uma sensação quase soropositiva
Percorreu a vida venosa
Do meu veneno.
Depois, positiva como soro
A sensação recuperou
Melhor enleio.
A aranha meneou
Uma média exata
De movimentos
E morreu, anoréxica e negra,
Com pose de um cisne negro.
Helena Bonham Carter –
Que surgiu ao me lado
Com a maquiagem borrada –
Bateu palmas
Mas se entediou com o enredo.       

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

BICHO DE LUZ


Uma iluminação
Ao modo de uma iluminura desbotada.
É que amor agora é uma espécie de laxante:
Ao invés de mirra na testa cingida
Com uma carícia relaxante
É o corpo mirrado que desacumula
O objeto distante.
Nenhum platonismo de plantão
Que realoque a androginia,
Na verdade aristofânica.
Nenhuma luz brilhante e epifânica.
Somente uma iluminação desbotada,
Sem dor de rim, sem Rimbaud
Ou Baudelaire.
Uma iluminação de quem se satisfaz
Com a luz da lâmpada.
Iluminação artificial, para quem quiser.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


Fantasmas de fio
Concertando com a harpa harpíaca da noite
Uma tablatura dinâmica no frio,
Percorrendo como um sonho de vida musical,
Envolvendo casas, invadindo janelas
Como assombrações
Ou teias de aranhas maestrinas
Vibrando os gestos de nota
Dos corpos mudos.
É que nesta noite cabelos
Assumiram desejos eólicos.
Os cabelos enlaçaram dedos,
Enredaram caminhos obscuros.
Eles dormem acordados,
Relativamente domam itinerários de devaneio,
Espargem aromas criativos em conflito aberto
Com os aromas das ruas e becos.
Os cabelos querem viver outra vida,
Senhores do sonho agora, areia nos olhos
Como carícia de lembranças reestruturadas
Com outra harmonia.
Melopaica via de vida como sonho
De uma deusa com cabelos que fazem sonhar.
Ou de um deus sem cabelos a alucinar. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

CONVOCAÇÃO


O convoco para o vazio.
O vazio não está aqui.
Nenhuma exibição do vazio
É o vazio.
Toda exibição não é o vazio,
Pois o vazio não se exibe.
Mas afirmo que está aqui.
Não está aqui
Mas está aqui.
Leia que está aqui.
Desleia até chegar à leitura.
O vazio está ali,
Onde antes disse aqui.
Mas desleia aqui e ali.
Desleia até chegar aqui.
O convoco para o vazio.
O vazio não se diz,
Por isto o caminho é seu.
O vazio não é meu.
Eu só o preenchi.
Eu, só.
Mas eu não sou só eu.
Eu, só, sou mais que eu.
Mas insisto que o vazio não é meu.
Na verdade, nem seu.
Mas o convoco para o vazio,
O vazio que é a origem
Ou não;
Que é o sagrado
Ou não;
Que é o horror
Ou não;
Que é a morte
Ou não.
O vazio... 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

SINGELEZAS


Minha língua espadachim
Esgrima a rosa líquida de sua boca.
Se fosse um singelo cotidiano
Diria que o atchim
De sua alergia é o pequeno espanto
Que faz com que uma alegria
Se concentre em outro canto
De nossa atenção.
Atingir o momento prévio
De seu atchim
E atentar para suas conseqüências
É o que faria
Com que sua alergia fosse a alegria
Do meu canto.
É a alegria sonora que aspiro...
Minha língua seria ronin
Na esperança
Do prazer do espanto.
É o prazer líquido que aspiro...
A água da boca e o sal da lágrima
Após o espirro.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


O homem ridículo passa na rua.
Como ele é ridículo
Não é necessário dizer.
O homem ridículo é mesmo
Até sem o saber.
Mas todos sabem
Quando o homem é ridículo.
Porque o homem ridículo
Não é um homem só
Nem só um homem,
Ainda que humano até a azia.
Ele só é ridículo
Quando o sabem ridículo,
E isto o torna necessário
Em sua ignorância
E em sua inecessidade cotidiana.
O homem ridículo
É uma espécie inútil
Pois sua importância
Está além de qualquer humanidade
Que se proclama.
O humanismo do homem ridículo
É sua própria ridicularidade
E a ignorância de si que dela emana.
Mais humano que todos
(Assim posto, o mais ridículo)
É o ridículo que, na ignorância,
Supõe que ama e que alguém o ama.